“(…) Dizem que o oposto do amor é o ódio; no entanto, este oposto é a indiferença. E acredito que o mesmo é verdade em relação à fé. A dúvida não é um sinal de perigo espiritual tão grande quanto seria a indiferença.

(…) Duvidar da minha fé não é o mesmo que duvidar de Deus. A minha fé é a minha própria criação – uma visão de mundo, um paradigma, um mapa para a vida, um conjunto de princípios orientadores – que estou juntando e rejuntando a partir do que leio, de quem conheço e respeito, do que experimento, e assim por diante. A minha fé não é perfeita, nem estática. A minha condição de ser finito faz com que ela seja incompleta, inexata em muitos lugares, desproporcional, com necessidade contínua de correções de percurso. Portanto, às vezes, ela também merece ser questionada – questionada para que possa ser corrigida. Se eu não duvidasse da minha fé, eu a protegeria e não a corrigiria; eu a defenderia e não a consertaria.

Desse modo, estou aprendendo que, quando duvido da minha fé, não tenho que duvidar de Deus. Na verdade, duvidar da minha fé pode ser uma oportunidade de aumentar a minha fé em Deus. Um provérbio do Antigo Testamento diz o seguinte: ´Confie no SENHOR de todo o seu coração e não se apóie em seu próprio entendimento; reconheça o SENHOR em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas.´ Há uma diferença – sutil, porém significativa – entre ter fé na minha fé (isto é, fé em meus conceitos intelectuais sobre Deus – outra maneira de dizer ´apoiar-se em seu próprio entendimento´) e ter fé em Deus. Há uma diferença correspondente entre duvidar da minha fé e duvidar de Deus.

Quando duvido da minha fé, quando não posso me apoiar nela por não ter certeza de que ela suportará todo o meu peso, então posso paradoxalmente me apoiar mais plenamente em Deus, com todo o meu coração. Nessas ocasiões, as minhas orações soam assim: ´Deus, por ora, não entendo nada muito claramente, inclusive você. Meus níveis de certeza e de confiança estão baixos, mas ainda acredito que você é bom – bem mais que minha melhor compreensão defeituosa de você. Desse modo, volto-me em sua direção, chamo você, peço sua ajuda no meio de minhas dúvidas. Sinto como se estivesse caminhando no escuro e não quero tropeçar ou me desviar do seu bom caminho. Guie-me nele, Senhor. Dirigi-me´. ”

(MCLAREN, Brian; Em busca de uma fé que é real, Ed.Palavra, pp.71-72)

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