Dr. Jekyll e Mr. Hyde vão a igreja

Estamos estudando o Evangelho de Marcos na Comunidade através da série “Investigando o Cristianismo”. Nesta terceira semana o tema é “Pecado: Por que Jesus veio?”.

A mensagem estará disponível ainda nessa semana aqui no blog, mas queria compartilhar apenas o esboço básico da mensagem e alguns insights para reflexão:

Algo está fora do lugar. Algo está errado. Atendado a bombas numa Maratona recentemente; crimes com grau de crueldade e violência sem limite… adolescente morto num assalto por causa de um celular…. dentista assassinada queimada por não ter saldo suficiente para satisfazer aos bandidos em sua conta bancária. Algo está errado com o coração do homem!

Citado na introdução do livro “Ortodoxia”, de G.K. Chesterton:

“Certa vez o jornal London Times pediu a alguns escritores que respondessem à pergunta: “O que há de errado com o mundo?”. Chesterton enviou a resposta mais sucinta: 

Prezados Senhores:

Eu.

Atenciosamente,

G. K. Chesterton

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Blaise Pascal, matemático e filósofo francês — “A religião cristã é a única que reconhece a grandeza e a pequeneza da natureza humana e a razão de ambas. Nenhuma outra religião, a não ser o cristianismo, conhece o homem como a mais excelente das criaturas e, ao mesmo tempo, a mais miserável.”

Dr. Jekyll e Mr. Hyde vão a igreja… poderia ser o tema da mensagem!
 jekyll-livro

O drama que melhor explica o fenômeno da múltipla personalidade é sem dúvida o famoso romance escocês O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, mais conhecido como O Médico e o Monstro, publicado em 1886. O médico, uma pessoa decente, e o monstro, um maníaco sexual, habitam numa mesma pessoa, que não sabe se é o Dr. Jekyll ou o monstruoso Hyde.

Parece que todos nós temos essa luta interna. Duas personalidades em conflito. Paulo diz em Romanos 7:17 “o pecado [...] habita em mim” (Rm 7.17). E no verso 19, “Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo.”  

Philip Yancey, escritor americano — “Há em todos nós traços de inteligência, criatividade e compaixão atrelados com traços de fraude, egoísmo e crueldade.”

John Stott, “Somente depois de contemplarmos claramente quem somos teremos condições de perceber a beleza do que Ele fez por nós e está pronto a nos oferecer.”

 Marcos 7:21-23 – “Pois do interior do coração dos homens vêm os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos, os homicídios, os adultérios, as cobiças, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a calúnia, a arrogância e a insensatez. Todos esses males vêm de dentro e tornam o homem ‘impuro’ “. 

Antes de qualquer cura física ou mudanças circunstanciais em sua vida, você precisa entender que a proposta do Evangelho é expor e mudar a raiz do problema do coração do homem – assim como Jesus fez com o paralítico em Marcos 2:1-12, antes de ouvir “levanta-te e anda”, você precisa ouvir a mais poderosa e alvissareira notícia que Jesus pode trazer sobre sua vida: “Seus pecados estão perdoados!”

João 1:29 - “No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.”

“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece as minhas inquietações. Vê se em minha conduta algo te ofende e dirige-me pelo caminho eterno” (Sl 139.23-24).

Pelo direito de discordar (por Ariovaldo Ramos)

discordarFui advertido de que nesse momento, que estamos vivendo na Igreja evangélica brasileira, discordar do Presidente do CDHM, em exercício, é concordar com o movimento GLBTS, e vice versa.

Discordo!

Eu respeito o irmão e oro por ele, mas, discordo da forma como o Deputado está conduzindo o mandato que recebeu de seus eleitores.

Eu respeito os seres humanos que optaram pela homossexualidade, mas, entendo que os direitos que estão a reivindicar já estão contemplados nos direitos da pessoa humana, cobertos por nossa constituição, e que o que passa disso constitui reclamos por privilégios, o que não é passível de ser concedido numa democracia, sob pena de contradizê-la.

Eu respeito o direito das uniões homossexuais terem garantida, pelo Estado, a preservação do patrimônio, por eles construídos, quando da separação ou do falecimento de um dos membros da união. Entretanto, discordo que seja possível transformar uma união voluntária de duas pessoas do mesmo sexo, a partir de opção comum e particular, em casamento, pois isso insinua haver um terceiro gênero na humanidade, o que não se explicita na constituição do ser humano. Assim como não entendo que a conjunção da maternidade e da paternidade, necessária para um desenvolvimento funcional do infante humano, seja substituível por mera boa vontade.

Eu respeito e exerço direito de pregar o que se crê, mas discordo do pregador, quando diz que Deus matou John Lennon ou aos Mamonas Assassinas, por terem desacatado o Altíssimo, como se o pecado humano não o fizesse desde sempre. A Trindade matou a todos os que a desacatam, em todo o tempo, no sacrifício do Filho, manifesto por Jesus de Nazaré (1 Pe 1.18-20), na Cruz do Calvário, oferecendo a todos o perdão e a ressurreição.

Eu respeito o direito de ter religião e o reivindico sempre, mas, discordo de tachar como agentes do inferno quem não concorda com o que penso, como se Deus, por sua graça, não estivesse, desde sempre, cuidando que a raça humana não sucumbisse à rebeldia inerente à sua natureza, o que explica o triunfo do bem frente a maldade explícita. Por isso discordo do pregador quando afirma que o sucesso de um artista, a quem Deus, por sua graça, cumulou de talentos, como Caetano Veloso, só se explique por ter feito pacto com o diabo. Como se ao adversário de nossas almas interessasse qualquer manifestação do Belo.

Eu respeito e pratico o direito ao livre exame das Escrituras Sagradas, conquistado pela Reforma Protestante, e, por isso, enquanto respeito o direito do teólogo expressar suas conclusões, discordo do teólogo quando suas considerações sobre o significado de profecias do texto que amo e reverencio, não corresponderem ao que entendo ser uma conclusão pautada pelas regras da interpretação bíblica, assim como, no meu parecer, ferirem a uma das maiores revelações desse Livro dos livros: Deus é Pai de todos, está em todos e age por meio de todos (Ef 4.6).

Reconheço a qualquer ser humano o direito de protestar contra o que não concorda, mas, nunca em detrimento do direito do outro, o que inclui o direito ao culto. Uma coisa é discordar do político outra coisa é cercear o direito do religioso, e de quem o convide para participar de um culto da fé que pratica. Uma coisa é denunciar o político por suas posturas, outra, e inadmissível, é atentar contra a integridade física ou emocional dele e dos seus.

Não admito, contudo, como cristão, ser sequestrado no direito de discordar, ou ser tratado como se fosse refém das circunstâncias, sejam elas quais forem. Foi para a liberdade que Cristo nos libertou (Gl 5.1).

Lamento que haja, entre os cristãos, quem trate a nossa fé como se fosse frágil e necessitada de proteção. Nossa fé foi preponderante na construção do Ocidente, e resistiu às mais atrozes perseguições.

Nós sempre propugnamos pela liberdade. Nós impusemos a Carta Magna ao Príncipe John, na Inglaterra; construímos o Estado Laico na revolução americana, quando, numa nação majoritariamente cristã, todas as confissões religiosas foram tidas como de direito. Nós lutamos entre nós pelo fim da escravidão, seja na guerra da Secessão, seja por meio de Wilberforce, premier Inglês, e de tantos outros movimentos. Nós denunciamos e enfrentamos os que entre nós quiseram fazer uso da nossa fé para legitimar a opressão. Os maiores movimentos libertários nasceram em solo cristão, e mesmo quando renegavam ao que críamos, não havia como não reconhecer a nossa contribuição à emancipação humana.

Nós construímos uma sociedade de direitos, lutamos por e reconhecemos direitos civis, e não podemos abrir mão disso; não podemos abrir mão da civilização que ajudamos a construir e a solidificar, onde mulheres, homens e crianças são protegidos em sua integridade e garantidos em seus direitos. Na democracia que ajudamos a reinventar, onde cada ser humano vale um voto, tudo pode e deve ser discutido segundo as regras da civilidade.

Nossa fé foi construída por gente que foi a toda luta que entendeu justa, pondo em risco a própria vida, e por mártires, por gente que se recusou a matar, por gente que não capitulou diante do assassínio, pois nós cremos que Deus é amor, e que o amor de Deus é mais forte do que a morte (Rm 8.38). E por amor a Deus e ao seu Cristo lutamos pela unidade e pela liberdade da humanidade.

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Ariovaldo Ramos é escritor, articulista e conferencista sobre a missão da igreja. Foi presidente da AEVB (Associação Evangélica Brasileira), missionário da SEPAL e presidente da Visão Mundial no Brasil. Atualmente é um dos presbíteros da Comunidade Cristã Reformada, em São Paulo (SP).

Publicado em http://www.ultimato.com.br/conteudo/pelo-direito-de-discordar

Nova série na Comuna: “Investigando o Cristianismo”

A partir do domingo 14/4, iniciaremos uma série de estudos no evangelho de Marcos: “Investigando o Cristianismo”.

Esse material foi desenvolvido na igreja All Souls, de Londres (Inglaterra), pastoreada por muitos anos pelo rev. John Stott e já foi traduzido para mais de 20 idiomas. Serão 7 estudos com os seguintes temas:

investigando cristianismo-414/4 – Boas Novas: O que estamos fazendo aqui?

21/4 – Identidade: Quem é Jesus?

28/4 – Pecado: Por que Jesus veio?

05/5 – A cruz: Por que Jesus morreu?

12/5 – Ressurreição: Por que Jesus ressuscitou?

19/5 – Graça: Como Deus pode nos aceitar?

26/5 – Renúncia: O que significa seguir a Jesus?

Além de nossos encontros aos domingos, 10h30, estaremos a partir de abril nos reunindo também em PGs (Pequenos Grupos) durante a semana, em diversos horários.

O PG será o espaço para você ser pastoreado, caminhar com novos amigos(as) e crescer espiritualmente – confira no link a seguir o contato dos líderes, locais e horários: http://comunabatista.com.br/pequenos-grupos/

Durante esta série de estudos, você será encorajado a ler todo o evangelho de Marcos, adquirir um livro de estudos que é material de apoio para esta série e participar de um dos PGs. Temos certeza que será um momento de aprendizado e crescimento em sua vida na caminhada cristã.

Seja bem-vindo para estar conosco!

Radicalidade ou radicalismo? (por Gerson Borges)

Excelente texto de meu amigo Gerson Borges, que acaba de retornar de uma viagem missionária de curto prazo pela Ásia e outros países. Ler, refletir e orar. Deus abençoe sua vida.

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gersonborgesUm ex-contrabandista de armas  para a Chechênia ,  que conheci no Quirguistão – agora um cristão convicto e dedicado,  missionário batista numa outra ex-república da antiga União soviética, onde testemunha aos seus antigos companheiros do Islã – me contou,  num café da manhã em que quase não quis comer nada , que “existem cerca de  uns 72 tipos de islamismos dentro do Islamismo”. Na Turquia, por exemplo,  tomei conhecimento do sincretismo mulçumano. Presenciei, na rua mesmo, no entorno da Mesquita Azul, um ritual sufi – música explendorosa, com direito ao rodopio e transe de um dervixe turco.  Isso sem falar no nazar boncuk, um amuleto  contra o olho grande e inveja ( ! ) , quase onipresente, desde o aeroporto de Instambul até as milhares de lojas do Grand Bazar. Uma corrente superticiosa, cheia de fetiches que me lembraram muito o catolicismo popular do Padre Cícero. E é claro que na ponta mais extremada está o pensamento fanático mais beligerante, capaz de morrer e matar em nome de Deus ( Allah ).  Nada que os antigos Cruzados ditos cristãos não tenham feito, é claro. Amigos albaneses me narraram algo assustador : o ex-ditador iugoslavo Slobodan Milosevic, chamado de Carniceiro dos Bálcãs, dava ordens ao genocídio ético em nome…de Deus.  A religião islâmica é grande e complexa. Ponto. E nós? Não temos setenta e duas denominações – temos uma 720, só no Brasil… contanto por baixo.

O ódio que tenho visto e ouvido na mídia por parte dos “evangélicos midiáticos ” me dá náuseas.  Se esse é o Deus que pregamos, que incita o ódio, o uso de toda e qualquer situação com fins eleitoreiros , ou seja, um projeto político  do tipo ” poder a qualquer custo e preço ” , e que, se preciso for, usa e profana o nome de Deus  – no que diferimos dos outros religiosos capazes de atos terroristas? A maior defesa não é o ataque , é o amor. O amor vence tudo.  O único remédio contra o amor ao Poder  é o poder do amor. Palavras de Jesus, de Paulo. Vividas e exemplificadas nas vidas de gente como Wesley, Bonhoeffer, Madre Teresa, Martin Luther King, alguns dos muitos “homens/mulheres de Deus, seguidores de Jesus de Nazaré, dos quais o mundo não foi digno ( Hebreus 11 ).  Jesus , por exemplo, não concordou de modo algum com a prostituição ( exploração degradante do corpo )  ou a corrupção dos publicanos ( excesso injusto de tributos, perpetuador da pobreza ). Mas deixou-se abraçar pela “pecadora” aos seus pés, chamou um “fiscal de rendas” de rendas para seguí-lo, jantou com outro  . Será que eu seria capaz de atitudes  assim? No entando, não vejo Cristo tendo a mesma atitude com os religiosos do maior radicalismo de então, os Fariseus. Com os tais, tolerância ZERO : ” Raça de víboras !  Sepulcros caiados ! “. Percebem? Por que esses pregadores de vento ao invés de apenas condenar o homossexualismo (  e é óbvio que, do ponto de vista da fé Judaico-cristã,

a família é heterossexual, assim como é obvio para o budismo, tomando outra fé religiosa como exemplo,  a castidade, a mortificação do desejo  ) não condenam também a vergonhosa e pecaminosa exploração da fé – e é igualmente  óbvio que os profetas de Israel e Jesus de Nazaré fizeram isso ?

Nas minhas andanças pela Ásia de maioria mulçumana descobri que pior que o anticristianismo somente a islãfobia… tomem suas conclusões.

Querem mudar o mundo? Imitem a Jesus. Mas o façam na radicalidade do Evangelho, não no radicalismo da religiosidade. Ao invés de MATAR por Jesus, queria ver esses fanfarrões da fé dispondo-se,  como meu amigo que agora distribui bíblias em vez de armas soviéticas, a MORRER por Jesus !

( Viva Joaquim Barbosa : ontem nos jornais, o presidente do Supremo, filho de um evangélica pentecostal  afirmou , contundente : ” Trata-se da democracia. O relator foi eleito por seus pares pelas regras políticas e recebe a crítica pelas mesmas vias democráticas.” Lucidez. )

Publicado originalmente em http://gersonborges.tumblr.com/post/47535393592/radicalidade-ou-radicalismo

Fé cega, faca amolada (por Carlos Bezerra Jr.)

O texto abaixo é de meu amigo Carlos Bezerra Jr, pastor da Comunidade da Graça em São Paulo. Creio que em dias de tanto mal testemunho “em nome de Deus”, esse artigo pode ajudar a esclarecer o papel do testemunho de um cristão quando exerce algum cargo público. Leia, reflita e ore. Deus abençoe sua vida!

maisamor“Novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” | João 13:34 e 35

Quando Rosa Parks se negou a ceder seu lugar no ônibus a uma mulher branca, nos Estados Unidos dos anos 1950, havia um pastor ao seu lado para protestar contra segregação racial. Ele liderou esse movimento por anos. Enfrentou ameaças e ataques. Seu nome era Martin Luther King. E sua participação foi decisiva na luta contra a discriminação não só nos transportes, mas em toda a sociedade norte-americana. Foi assassinado brutalmente. Mas virou herói em seu país, e, hoje, não é possível falar de Direitos Humanos ou minorias sem citar sua enorme contribuição.

Esse movimento de mais de 60 anos atrás me lembra de que, quando a fé encontra a ação política profética, não precisa necessariamente se transformar em acusações, falso moralismo ou hipocrisia. Antes, pode ser traduzida em ação contra a injustiça, a favor da inclusão e pela paz. Infelizmente, porém, parece que o modelo capaz de combinar atuação pública relevante e cristianismo genuíno está sendo ignorado por alguns daqueles que resolveram se dizer porta-vozes da Igreja brasileira.

Tenho acompanhado com perplexidade – e, tenho de dizer, com constrangimento – o noticiário dos últimos dias. A conclusão é óbvia: a plataforma dos Direitos Humanos virou palanque predileto de um certo povo lá de Brasília… Usar tema dessa importância só pra se promover já não seria coisa boa. Porém, se ao menos estivessem batendo bumbo contra a corrupção, a violência e a injustiça vá lá… Mas não. O que estão fazendo é acentuar preconceitos e rancores, estimular a exclusão e o racismo, e defender a intolerância. E o pior: tudo isso em nome de Deus (e no meu e no seu nome também!).

É evidente que, num país democrático, ninguém pode impedir quem quer que seja de expressar suas opiniões, valores e crenças. E o princípio vale também para nós, evangélicos, que temos de ter liberdade para dizer o que pensamos. Não se combate intolerância com intolerância, nem fundamentalismo com mais fundamentalismo. Sem dúvida, repudio qualquer tentativa de cerceamento desse direito.  Porém, não podemos nos esquecer de que Jesus veio a esse mundo com a missão de salvá-lo e não de acusá-lo.

Quem me conhece, sabe da minha militância de quase 20 anos pelos Direitos Humanos. Sabe de minha luta e da luta do grupo que represento para garantia de direitos aos pobres, aos injustiçados, aos mais fracos, aos escravizados… E, na semana que passou, fui ao plenário e me posicionei contra essa redução da agenda bíblica de transformação social a questões de sexualidade. No entanto, não protestei como ativista do tema: discursei como cristão.

Fui ao microfone e critiquei esse modelo de política e púlpito que explora questões étnicas ou de sexualidade em troca de lucro eleitoral (ou seja, voto). Mas, sobretudo, usei meu pronunciamento para pedir perdão. Sim, dirigi-me aos não-crentes, àqueles que não professam a mesma fé que eu e você, e pedi que nos perdoassem se, de alguma forma, o barulho que está sendo feito os estiver impedindo de entender a verdadeira mensagem de Jesus.

Há mais de dois mil versículos na Bíblia falando sobre o cuidado com os pobres e aproximadamente seis tratando sobre homossexualidade, por exemplo. No entanto, não se vê nenhum projeto para atender a quem sofre. Pergunto: Quantas vezes Jesus falou sobre homossexualidade? Respondo: Nenhuma… No topo da lista dos confrontados pelo Mestre estavam os homossexuais? Ou eram os hipócritas religiosos de Sua época? Por que, então, super explorar alguns temas de forte apelo eleitoral e desvalorizar outros, claramente enfatizados pela Bíblia e por Jesus? A quem interessa reduzir a essência amorosa e transformadora da mensagem de Jesus à agenda moralista? Será que esses que fecham os olhinhos diante das câmeras da imprensa, parecendo muito espirituais, não os mantêm bem abertos, fixos nos votos que podem tirar de todo esse teatro?

“Errais não conhecendo as Escrituras”, diz a Palavra. E o problema fica ainda mais agudo quando esse discurso sem amor ou sabedoria contamina algumas igrejas. Aí, é mesmo como na velha música: fé cega, faca amolada. Crentes sinceros têm aderido a essa ideologia esdrúxula, sem saber que estão assumindo uma agenda que nada tem a ver com os reais desejos do coração do Pai.

Atenção, caro leitor. Não estou propondo que essa ou aquela prática seja, agora, legitimada. Há questões que são específicas da Igreja. E outras que são de Estado. Não apoio aqueles que tratam a nós, evangélicos, como ignorantes. Minha fé e minha consciência cristã não estão alinhadas a esses que querem impor no grito sua condição como regra. Defendo que respeitem a nós, evangélicos, com o mesmo respeito que têm exigido.

Porém, o que acontece é, no meio de todo esse barulho, a ideia de cristianismo transmitida está errada. O testemunho público está ruim. Pesquisa recente, realizada pelo Barna Group, nos Estados Unidos, questionou jovens não-cristãos sobre sua percepção sobre os cristãos. O resultado? Para eles, a principal característica dos crentes é a de ser anti-homossexual. Triste conclusão a de que cristãos estejam se tornando mais conhecidos pelo que são contra do que pelo que são a favor. Vale a reflexão. Essa com certeza não era a impressão que as pessoas tinham ao encontrar Jesus ou os irmãos da primeira Igreja.

Perde-se tempo com discussão de modos e costumes, quando uma agenda cristã contemporânea, biblicamente fundamentada, conduzida com honestidade e humildade, poderia diminuir a violência, lutar por melhores condições de saúde, erradicar a pobreza e a escravidão moderna, cuidar da Criação, fortalecer as famílias, promover o respeito à sacralidade da vida humana e sua dignidade intrínseca – bem ao contrário dos absurdos que temos visto.

A esses pastores ou políticos que se autodenominam defensores dos evangélicos, lembro que a Igreja já tem em Cristo o seu maior e suficiente defensor. As vozes cristãs que mais foram ouvidas e mais transformaram a história da Humanidade não foram essas que se apressam em julgar e condenar. Foram aquelas que pregaram e viveram a essência da mensagem de Jesus: o amor, a paz, a justiça, o perdão, a tolerância, a não violência, a defesa dos mais frágeis, a vida com integridade. Foram vozes que se levantaram contra o racismo e a hipocrisia religiosa. Salve Mandela, salve Desmond Tutu, salve Martin Luther King, Bonhoeffer, Wilberforce, Jaime Wright, Robinson Cavalcanti! Com esses, estou alinhado, hoje e sempre.

CARLOS BEZERRA JR., é pastor, médico e deputado estadual. É líder do PSDB na Assembleia Legislativa-SP e vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos do Estado de São Paulo. Autor da lei que criou o Programa Mãe Paulistana e da nova lei paulista contra o trabalho escravo. Acredita que a missão do cristão na política seja a definida pelo texto de Salmo 82, nos versículos três e quatro: “Vocês estão aqui para defender os indefesos, para assegurar que os prejudicados tenham uma chance de justiça. O trabalho de vocês é proteger os fracos, perseguir os que os exploram”.

Conferência Atos 29 Brasil

Nos dias 20 a 22 de maio, estarei participando da Conferência Atos 29 Brasil, no Rio de Janeiro. Além de diversos palestrantes excelentes, estará presente Steve Timmis, um dos fundadores da comunidade Crowded House, de Sheffield – Inglaterra (http://www.thecrowdedhouse.org/), diretor da Acts 29 Europe, e autor do livro “Igreja Total” (Ed.Tempo de Colheita), livro que impactou minha maneira de pensar a relação entre o “evangelho & comunidade”. Saiba mais sobre essa conferência, divulgue para seus amigos e líderes, acesse http://www.atos29brasil.com/ .

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